BhT-: "Às vezes não é preciso mundos e fundos, não são precisos milhares, milhões para se fazer uma coisa bem feita"

A nossa última peça produzida no bootcamp realizado pela equipa de Counter-Strike: Global Offensive do Sporting Clube de Braga nas suas instalações vê agora a luz do dia com o Nuno "BhT-" Silva como convidado. Ao longo desta entrevista, é discutida a participação do Braga enquanto clube nas actividades do dia a dia da seção de Esports, da experiência vivida até agora como jogador do clube, quais os pontos de foco em que a equipa trabalhou ao longo de um fim de semana de trabalhos entre outros assuntos, como o esforço e equilíbrio aplicado entre BhT- jogador e BhT- caster.



"Às vezes não é preciso mundos e fundos, não são precisos milhares, milhões para se fazer uma coisa bem feita"


Fraglíder: BhT-, desde que foste apresentado no Verão passado que definiste esta experiência como algo único. Depois deste fim de semana e da surpresa que vos fizeram, ainda mais único se torna. Como defines a importância deste bootcamp para ti e para a tua equipa com as condições que o clube vos forneceu?

BhT-: Para definir numa outra palavra é surreal, é a única palavra que tenho. Se a apresentação foi incrivel, o acompanhamento até aqui foi ainda melhor e este bootcamp é uma coisa mesmo fantástica. Desde a apresentação, condições e aquilo que permitiu à equipa é algo completamente inacreditável. Fomos os primeiros em Portugal, a verdade é essa, e um dos primeiros na Europa e ainda bem porque o Braga está mesmo a dar um passo enorme na modernização do clube e isso é de louvar, muitos parabéns ao Braga e a toda a estrutura que permitiu que isto fosse possível.

Desde o dia em que chegamos ao estádio até hoje ainda estamos... acho que o choque ainda não bateu, estamos naquela do isto está mesmo a acontecer, nós estamos mesmo aqui. Ontem à noite, só para tu veres iamos para jantar e dissemos ao Adriano: "a gente se quiser janta ali no camarote, não precisamos de ir para o hotel, deixa estar porque a gente quer é ficar aqui a noite toda", queremos é estar aqui sentados e é uma experiência mesmo inacreditável.

Fraglíder: Nós temos visto os clubes tradicionais a apostar nos Esports mas muita gente considera que as tentativas feitas até agora não são bem medidas, estão presentes mas ao mesmo tempo não estão a introduzir aquilo que as pessoas achavam que a entrada deste clubes iria acrescentar nos esports nacionais. Olhando ao que o Braga está a fazer convosco, como avalias a sua participação nesta área?

BhT-: Nesse sentido e com o devido respeito a todos os outros clubes, acho que o Braga está 10 passos à frente de toda a gente neste momento. Com o devido respeito, toda a gente tentou entrar e vendeu-se um pouco aquela imagem de que ia ser uma coisa nova mas foi um pouco mais do mesmo, ter uma equipa, ter um nome numa liga e depois condições era o mesmo que uma organização normal. O Braga assumiu uma postura incrível e disse "não, os jogadores que vierem para a nossa seção são jogadores do Braga, são jogadores do clube, do Sporting Clube de Braga e temos de tratá-los com as devidas condições porque eles não são diferentes".

É isso que eu tenho vindo a sentir desde o dia da apresentação porque não sinto que sou um míudo que joga computador, sinto-me como um jogador do Braga e a direção reconhece os jogadores, reconhece-nos a nós, cumprimenta-nos com a maior das normalidades, é uma coisa mesmo única. É nisso que o Braga mais uma vez está de parabéns porque percebeu que não podemos apenas ser mais 1, temos que realmente dar aquilo que o público esperava e a verdade é que foram os primeiros. Começamos com outros clubes mas todos eles deram o primeiro passo mas não continuaram a dar passos, ficaram naquele meio gás. O Braga não, o Braga entrou com todo o gás e está a corresponder semana após semana, mês após mês, tem sido inacreditável e é um exemplo.

É importante que sejam um exemplo, que as pessoas olhem e percebam que às vezes não é preciso mundos e fundos, não são precisos milhares, milhões para se fazer uma coisa bem feita. As estruturas estão lá, é uma questão de vontade e de realmente, saber fazer.


 

"O CS é um jogo de equipa, (...) é 5 para 5, 1 minuto e 55 de ronda e ou jogamos juntos ou não vamos a lado nenhum."


Fraglíder: A partir do momento em que te informaram que ias ter este bootcamp, certamente a primeira coisa que te passou pela cabeça foi aproveitar o mesmo da melhor maneira possível. Desde esse momento, o que foi preparado por ti para este fim de semana? Quando olhaste para a tua equipa, o que sentiste que faz mais falta neste momento? Quais os pontos em que te decidiste focar de forma a elevar o vosso nível?

BhT-: Antes de virmos para o bootcamp quando soubemos que ele estava confirmado, juntamo-nos os cinco numa noite no Teamspeak para também não ser só a minha ideia, tentar perceber o que os outros jogadores achavam que fazia falta. Uma das coisas que ainda hoje estivemos a falar sobre isso de manhã era o nosso early game, às vezes ele estava meio perdido e confuso... às vezes andávamos rápido a tentar ir para umas zonas do mapa quando não havia necessidade, éramos muitas vezes apanhados de surpresa. Então foi basicamente perceber do nosso early, mid e late game qual deles estava a falhar principalmente e, acima de tudo, ver vários modos e formas nos vários mapas da nossa map pool onde podemos perceber e exemplificar aquilo em que estamos a falhar.

Isso foi uma das coisas em que estivémos hoje a trabalhar também, perceber isso e solidificar um bocado a map pool, é importante dar alternativas também ao jogadores, umas mais rigorosas, outras mais soltas mas acima de tudo foi mesmo e é nisso que o bootcamp foi importante, olhar para os jogadores que temos. O 2EZZZZZ e o Keeptz são dois jogadores mais jovens, têm menos experiência, olhar para eles e dizer - ok, nós estamos a ser apanhados ou por falta de concentração ou por falta de experiência ou estamos a ser surpreendidos quando não deviamos. Onde é que isso está a acontecer? Como é que a gente pode evitar isso? Como podemos partir o nosso jogo em subpartes, seções de maneira a que façamos as coisas de uma forma mais rigorosa, claro, isto tudo na teoria.

Como impedir que sejamos apanhados de surpresa e, acima de tudo, jogar em conjunto porque o CS é um jogo de equipa, não é Quake onde se anda a jogar em 1 para 1 nem é Team Deathmatch, é 5 para 5, 1 minuto e 55 de ronda e ou jogamos juntos ou não vamos a lado nenhum.

Fraglíder: O teu colega de equipa insider referiu numa entrevista feita anteriormente conosco que é um facto que a equipa tem falhado as qualificações para os eventos presenciais mas que esse não é um dado que vos afete até porque o projecto é algo a médio-longo prazo. Que comentários teces a esta afirmação? Partilhas da opinião?

BhT-: Eu concordo com tudo o que ele disse, até que é verdade porque na altura em que estávamos na qualificação para as ligas e os principais torneios de final de ano foi quando perdemos 2 jogadores. Um deles porque nós nem sabíamos, foi assim meio de surpresa e então acabou por atrapalhar um pouco as contas. Nós até estávamos a jogar bem na altura, fomos à final do qualificador da Comic Con com os atuais K1CK, perdemos por 16:11 ou lá o que foi num qualificador em que acho que surpreendemos, que nos correu bastante bem para quem estava junto há duas semanas mas esse résvés acabou por atrapalhar um pouco. Tendo em conta as adições que fizemos, essa foi uma conversa que a gente teve desde o início quando decidimos quem íamos meter no lineup, sabíamos que ia demorar um pouco mais tempo mas sabíamos que íamos fazer uma coisa com pessoas que estão conosco, vão continuar conosco e que se encaixam dentro daquilo que a gente pretende.

É normal quando se pega em dois jogadores novos que as coisas demorem um bocadinho mais; mais normal é também quando estes dois jogadores, apesar de serem bons e excelentes jogadores, nenhum deles ganhou um torneio grande em Portugal ainda, aliás, nem nós. É normal as coisas demorarem o seu tempo, é chato um bocadinho porque nós queremos qualificar-nos, queremos ir lá mas vamos estar presentes em todos os qualificadores até ao final do ano e vamos lutar sempre por todos eles mas também temos noção da realidade e é uma das coisas que eu imponho um bocado, que a equipa todas as semanas, uma ou duas vezes converse, dar uma pausa e esclarecer que os objectivos estão bem definidos para as pessoas estarem com a cabeça no sítio e seguirmos todos com a mesma ideia - é importante estarmos todos juntos nesse sentido.


 

"A estrutura desde o Verão passado onde fomos apresentados que não há uma única palavra negativa a dizer. Eles têm sido fascinantes, algo mesmo surreal"


Fraglíder: Uma pergunta que te é feita muitas vezes certamente enquanto figura dos esports nacionais - existe o BhT- jogador e o BhT- caster que costuma estar presente em vários eventos. Como é feito o equilíbrio entre os teus dois trabalhos nos Esports? Como achas que isso afeta a equipa, se afeta e qual é o teu esforço pessoal para estabelecer esse equilíbrio? De que lado é que a balança pesa mais?

BhT-: Essa foi uma conversa que já tive há muito tempo atrás porque houve uma altura em que quase tive de decidir entre um ou o outro. Felizmente, consegui sempre até hoje equilibrar. Não é fácil porque acabas sempre a sacrificar tempo a um ou a outro mas ambos sabemos que às vezes, enquanto caster não aparecer a 4-5 eventos é o suficiente para as pessoas se esquecerem e ficares um bocado de lado mas para mim, a escolha sempre foi simples. Eu gosto é de jogar, sempre gostei de jogar e enquanto eu poder continuar a jogar, quero jogar. Adoro fazer cast, mas prefiro jogar mil vezes e para mim essa escolha é simples. Todos os organizadores de eventos sabem, pelo menos eu já falei com todos, se eu não tiver nada para fazer, nenhum evento ou algo relacionado com a equipa, telefonem-me que a gente arranca.

Claro que por exemplo as Ligas, e a Bitzer até foi um caso excepcional porque na altura consegui arranjar uma maneira de o fazer, tudo o que seja ligas e torneios a meio da semana, qualificadores... não dá. Não dá porque vai influenciar os treinos da equipa, vai influenciar o tempo que eu vou dedicar e acho que a equipa merece que eu me dedique a ela e para mim, a equipa é a prioridade. Portanto, primeiro vem a equipa e, se eu não tiver nada para fazer com a equipa - lá está, os fins de semana são os dias que nós tiramos para descansar, estar com as namoradas, etc - então eu não tenho nada para fazer, o evento é ao fim de semana e posso ir, se eu não for lá jogar claro. Se for lá jogar não posso dar cast mas a ideia é sempre essa, primeiro jogar, primeiro a equipa. Se não for conflituoso, eu posso dar cast, faço o esforço e é tranquilo.

Fraglíder: Tendo em conta os vossos objectivos traçados para o médio-longo prazo e juntando a isso todo o suporte que o clube vos está a dar, o que podemos esperar do Braga enquanto equipa de CS:GO e organização nos próximos tempos?

BhT-: Enquanto organização, acho que o Braga vai continuar a dar os 10 passos à frente de toda a gente. Estão a prová-lo até agora, acredito que com o sucesso que isto está a ser a nível de redes sociais e interação que já queiram dar o próximo passo, certamente que já estão a planear isso. Como equipa, o nosso objectivo é sempre o mesmo - não vamos a nenhum torneio andar apenas a participar e a brincar aos feijões. Se vamos, vamos para ganhar, claro que temos noção da nossa realidade mas vamos para ganhar. O próximo qualificador que houver nacional é para participar, vamos continuar na Winners League da FACEIT, até agora estamos com 3 vitórias o que é bom, estamos em primeiro ou segundo do grupo se não estou em erro.

Ainda temos muitos jogos pela frente, um para a semana já na segunda ou terça feira e queremos continuar a participar em todo o que é torneio e mantermo-nos juntos, o que o insider disse e é verdade é que isto é algo feito a longo prazo, temos de ser honesto e dizer que nenhuma equipa se faz em um mês. Às vezes tenta-se, corre bem um evento ou dois e depois aquilo aquilo é uma casa a arder, lamento mas é verdade. Se uma coisa é para ser feita, é para ser feita a longo prazo e com condições - como tudo o que acontece a longo prazo, vai haver momentos mais felizes e momentos menos felizes.

Fraglíder: Pensamentos finais que queiras deixar no ar?

BhT-: Agradecer-te a ti pela entrevista como é óbvio, agradecer à equipa e malta do staff do Braga, o Adriano e o Luís têm sido incansáveis, espetaculares - 6 estrelas. Ao Joel, diretor de modalidades do Braga e toda a estrutura que desde o Verão passado onde fomos apresentados que não há uma única palavra negativa a dizer. Eles têm sido fascinantes, algo mesmo surreal portanto obrigado a todos eles, obrigado pelo apoio e espero que continuemos a corresponder-nos uns aos outros, nós a eles e eles a nós durante muito tempo porque esse é o nosso objectivo.

Fraglíder: Obrigado BhT- por esta entrevista.

Nota: Entrevista datada de 28 de Outubro de 2018. Inicialmente realizada em vídeo, por condições adversas que prejudicaram a qualidade do produto final fomos forçados a lançar a mesma em formato texto, situação pela qual pedimos desde já desculpa aos intervenientes e também aos nossos seguidores pelo atraso na divulgação desta entrevista produzida.




 
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