Xpére e AcroniK - o universitário e o aluno do secundário que assinaram pelos Liquid

Internacionalizações de portugueses nos esports podem, por vezes, parecer poucas. Os nomes mais conhecidos, como o de Ricardo “fox” Pacheco ou Amadeu "Attila" Carvalho, normalmente vêm do CS:GO ou de LoL.

No entanto, um jogo que passa ao lado de muitos é o Rocket League. Pode ser conhecido, seja como jogo casual ou apenas por ser semelhante ao futebol que os portugueses tanto amam, mas o lado competitivo é comumente ignorado.

Desde cedo que a Psyonix--desenvolvedora do jogo--fomentou a competição. E fê-lo bem, com rápido crescimento internacional. Em Portugal… a história era diferente.

"Não existia nada [em Portugal]. Criavam-se torneiozinhos de vez em quando, aparecia alguém... e chau, basicamente,” disse André “Xpére” Ruivinho, o recém-anunciado treinador dos Liquid no Rocket League.

A primeira vez que Xpére e Bruno “AcroniK” Lopes entraram em contacto foi em 2017, através de uma academia da FTW onde Xpére jogava na altura. Mais tarde, estes dois criaram uma equipa para uma liga nacional da altura.

E daí ficaram amigos. Por vezes discutiam--AcroniK não queria aceitar os conselhos de Xpére--mas o que é certo é que ficaram unidos durante vários anos.


Xpére falhou os playoffs da dita liga porque “estava nas praxes,” mas isso nunca foi um problema. Ambos estavam cansados de jogar em Portugal, sobretudo AcroniK, e queriam aventurar-se pela Europa.

“Para jogar Rocket League profissional tens de ter 15 anos, e eu tenho 16. Só de há um ano para cá é que pude começar a jogar profissionalmente,” disse AcroniK. “Antes disso, só jogava em torneios portugueses ou pequenos internacionais que não tinham limite de idade.”

“Mal fiz os 15, fui logo para a parte europeia. Eu quando tinha 14 anos, já só me queria era ver com 15 anos para poder sair daqui, de Portugal."

A saída para a Europa deu frutos, sobretudo a partir de 2021.

A partir de março, sob o título de Godsmilla’s Team e, mais tarde, BS+COMPETITION, com Leon "Godsmilla" Mares e Sandro "FreaKii." Holzwarth, a equipa começou a ganhar nome. Estavam a jogar com um antigo membro dos Nordavind e Singularity e com um jogador que foi a várias fases finais da RLCS.

Os treinos eram incessantes.

“Dois meses antes dos torneios começarem nós tínhamos duas horas [de treino] por dia. Nós não tínhamos dias de pausa,” frisou AcroniK. “Acho que nem [a escola] era motivo para pararmos de treinar. Houve, basicamente, dois meses consecutivos de treino sempre a treinar contra as equipas do top 10, top 15."

Os torneios a que AcroniK se refere pertencem à RLCS. É o circuito oficial do jogo, que contava com 1.2 milhões de dólares em prémios só para a Europa em 2020. Divide-se em três splits (Fall, Winter, Spring) e cada uma tem três eventos regionais, que culminam num Major.

Os BS+COMPETITION de AcroniK e Xpére entram nesta competição a sério no Spring Split. No primeiro evento regional da RLCS terminaram no top 4 depois de uma derrota para Vitality, que contam com os lendários Victor "Fairy Peak!" Locquet e Alexandre "Kaydop" Courant.


Terminaram no top 20 no evento seguinte. Uma queda bruta, que AcroniK atribui ao conforto com que ficou depois do primeiro Regional e falta de atenção ao jogo. Regressaram no terceiro evento regional com outra colocação top 4.

"Com muita pena minha e com muito azar, podíamos ter feito o top 2 e, até, se calhar, ganhar,” confessou AcroniK sobre o último Regional. “Na última série que jogámos, perdemos 4-3 em jogos. No último jogo, estávamos a ganhar 2-1 a 20 ou 30 segundos do fim, nem isso, e eles marcaram a 15 segundos do fim."

Foi uma derrota no top 4, mas que deu um nome à equipa. Deu um nome ao processo de Xpére e de AcroniK.

"A malta toda começou-me a explodir no Twitter, a falar de mim,” disse o jogador. “Foi uma coisa impressionante."

Cada torneio destes atribuiu pontos à equipa, que os qualificou para o Spring Major, o culminar da época da Primavera, com a sétima seed. A equipa foi roçar os ombros com alguns dos maiores nomes na Europa, como o antigo bicampeão mundial Francesco "kuxir97" Cinquemani e os já referidos Vitality.

Os grandes nomes não faziam frente a AcroniK, explicou mais tarde. O foco era ganhar, jogar melhor, e destacar o nome.

Infelizmente, os ganhos foram poucos. A única vitória alcançada pela equipa no Spring Major foi contra os German Amigos, mas mesmo assim saíram em último do grupo. As memórias que AcroniK retira do evento, apesar da saída prematura, são apenas boas. Ouve-se na voz e no quanto fala do torneio.

“Eu saí completamente orgulhoso,” disse. “Eu fiz aquilo que queria fazer, porque eu queria chegar ainda mais longe com esta equipa mas o meu principal objetivo era mostrar-me ainda mais ao mundo e poder, finalmente, mostrar o que eu realmente jogo tanto para os jogadores contra quem eu jogava como para as pessoas que assistiam as lives.”


Um cheirinho do novo jogador dos Liquid.

"Era uma coisa incrível. Jogar contra equipas profissionais, saber que estou no meio desses profissionais,” continuou AcroniK. “Ainda para mais, joguei contra equipas top 2, top 3, e eu era o único novato no jogo. E depois nas streams do Rocket League e no Twitter, era tudo a falar do meu nome como era novato. Sei que estou a jogar contra os melhores da Europa e o meu nome é o que sobressai mais, é um feeling..."

Depois do torneio, a equipa alcançou um obstáculo.

“Nós estávamos nos BS+COMPETITION ainda e, durante o bootcamp, descobrimos que os nossos planos não estavam de acordo com os dos outros jogadores e eu dei a minha opinião honesta ao AcroniK,” revelou Xpére.

O treinador acabou por dizer que o desejo era sempre de continuar a desempenhar as suas funções com AcroniK. Caso não desse, desistia do Rocket League (outra vez).

AcroniK aceitou a opinião de Xpére e começou à procura de oportunidades. Onde? Numa escala de sete horas, no aeroporto de Schiphol, em Amsterdão. O tempo para refletir e matar levou AcroniK a, quase, firmar a sua nova equipa ali e então.


“Um dos jogadores que eu sabia que poderia estar interessado era o Aldin "Ronaky" Hodzic [capitão dos Liquid] e mandei-lhe mensagem,” disse. “Expliquei-lhe a situação e se ele estava interessado. Disse que sim e que nem sabia que eu ia estar disponível para os Liquid, mas que já tinha o olho em mim há algum tempo.”

"O AcroniK [...] mencionou o meu nome aos Liquid,” disse Xpére. “Depois de fazermos a terminação mútua do contrato [com os BS+COMPETITION], fui para uma call com o Ronaky. Falei-lhe dos meus planos e, depois disso, acho que ele ficou impressionado. Acabei por ficar eu como treinador e as coisas têm corrido bem e temos estado a melhorar."

Ainda não era desta que Xpére se reformava, apesar das suas tentativas passadas. Ambos ficaram pelos Liquid, acrescentando à lista de internacionais portugueses nos esports.

Xpére entrou nos Liquid junto de AcroniK, jogador. São de idades e alturas da vida diferentes, já que o primeiro é universitário e AcroniK está ainda a acabar o ensino secundário, mas mantêm-se unidos e amigos já há vários anos.

“Sinceramente, até digo que eu nunca esperei ser profissional desde que comecei a jogar [Rocket League],” disse AcroniK. Xpére interrompeu para dizer que ecoava os sentimentos, mas nas suas funções de treinador. "Eu tentei ser profissional baseado no que as pessoas me diziam,” disse AcroniK. “Até o próprio Xpére me dizia isso.”


"Há um ano atrás era ’o Rocket League é um jogo que gostamos de jogar,’” disse Xpére. "Agora é ’dá para fazer uma vida’. Obviamente que eu estou na universidade e o AcroniK no secundário mas dá para fazer uma vida durante uns anos."

Agora que estão nos Liquid, vão ter de enfrentar um processo longo e árduo. O qualificador aberto para o RLCS Fall: Europe Regional #1 começa hoje, dia 15 de outubro, colocando oito equipas no qualificador fechado. Daí juntam-se a oito do Invitational Qualifier e oito vão para o evento principal.

Tal como na época passada, vão ter de participar e acumular pontos em três regionais se querem ir ao Major. Desta vez, com o acalmar da pandemia, o Major é em LAN e um objetivo de ambos os portugueses. As cinco melhores equipas dos rankings europeus vão a Estocolmo jogar a primeira LAN internacional de Rocket League desde o fim de 2019.

"Já atravessámos tudo com os BS+COMPETITION, agora vamos ter de o fazer com os Liquid."





 
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