Fotografia: Miguel Pinto/Fraglider

O ano de 2022 está terminado no que diz respeito à competição no Counter-Strike: Global Offensive, pelo que é altura de fazer balanços e o FRAGlíder conversou com André “Mucha” Muchagata sobre o que trouxe este último ano no cenário. Em entrevista, o caster abordou os cenários nacional e internacional, falou de um projeto que se revelou um fracasso, mas também teceu elogios a outros.

(Entrevista realizada a 13 de dezembro de 2022)

FRAGlíder: 2022 fica marcado no cenário português pelas trocas entre SAW e FTW. Como é que analisas as mudanças nas duas equipas e o que é que trouxeram a cada uma delas?

Mucha: Acho que as mudanças nos SAW eram mais do que obrigatórias, depois de terem fracassado em grande parte dos seus objetivos. Ficaram no quase no RMR, da maneira que nós infelizmente ainda nos lembramos várias vezes, mas a gota de água é quando perdem quer a MLP, quer a ESL Masters para a FTW. Era mais do que esperado que, caso mexessem na equipa, seria o ir buscar alguém à equipa que os impediu de ter mais vitórias e depois, por consequência, a FTW tinha de reestruturar. Sabemos que não houve só a saída de jogadores na FTW mas também alguns jogadores que queriam trocar de role. O DDias estava disponível para deixar de dar calls e o arrozdoce também queria outro tipo de papel dentro da equipa e isso fez com que as mudanças na FTW fossem muito mais profundas e por consequência demorassem mais até recuperar o que tinham “perdido”.

Gerou-se alguma polémica quando story e ewjerkz seguiram para a SAW e houve até quem dissesse que se estava a estragar uma equipa. Consideras que haviam razões para esta polémica?

Do que eu entendi, creio que a polémica foi mais no sentido de como se fez as abordagens/contactos com os jogadores e não tanto pelas trocas em si, mas tendo em conta que não estou de todo por dentro desse processo, não tenho nada a comentar. Percebo o porquê de a comunidade ter dito isso do “estragar” uma equipa. Nós, infelizmente, não estamos habituados a ter equipas portuguesas a vingar lá fora. Os SAW há uns anos atrás mostraram-nos esse caminho, a FTW estava a começar a fazer a mesma coisa e no seu pico de forma dão-se as saídas, logo, é normal surgir esse tipo de comentário.

Este ano acaba com SAW e FTW a dividir troféus. Esperavas este equilíbrio entre ambos quando 2022 começou?

Honestamente, não. Como disse anteriormente, tendo em conta as mudanças mais profundas na FTW e juntando o facto de as coisas inicialmente não terem funcionado nada bem para eles, achava que se iria notar um pouco mais o fosso entre as duas equipas, mas ficamos todos a ganhar. Ganham os SAW por estarem sempre com o calcanhar mordido, a FTW por achar que consegue, apesar das trocas, voltar a fazer o que conseguiu anteriormente e depois todos nós, pelos grandes jogos que nos dão quando o duelo acontece.

No que toca às restantes equipas, há aqui alguns projetos em particular em destaque. Comecemos por Fourteen: podemos dizer que é mais um ano falhado? A primeira metade do ano não foi boa. Na segunda, as mudanças pareciam fazer sentido, mas a equipa ficou novamente aquém. Onde está o problema?

Sem a mínima dúvida. A partir do momento em que não consegues sequer chegar à final four da MLP, tem de ser considerado um fracasso. Ainda tiveram alguns momentos, se bem que curtos, de alguma projeção internacional, mas ficaram aquém. Queria, no entanto, dizer que também acabam por me surpreender porque depois da saída de fox, na ESEA alcançam os play-offs na Advanced e todos nós sabemos a dificuldade que isso é. Será que nos deixam algo já para a próxima temporada ou vamos ter novas mexidas?

GTZ surgiu como uma das boas surpresas na segunda metade do ano. Estiveram perto do RMR e assumiram-se como a equipa mais próxima de se poder bater com SAW e FTW, mas entretanto surge agora uma mudança com a saída de Slaxx. Por onde pode passar o futuro deste lineup, isto é, quem poderá ser a peça que compõe tudo?

Queria começar por dizer que é sempre uma pena termos jogadores que têm muito talento e muito para nos oferecer dentro do CS:GO, mas que infelizmente não sendo profissionais fica difícil continuarem a insistir por essa via, seja contra a pressão dos familiares ou até mesmo a frustração de não o conseguirem. Eles muito recentemente acabaram por desiludir na MLP. Perderam contra os VELOX em modo mix team, portanto, não sei se também não mexem no lineup, até porque os três portugueses dos VELOX ficaram free agents. O futuro vai mesmo passar pelo snapy, naquilo que serão as suas ideias para ajustar a equipa, mas gostava que o core pelo menos se mantivesse junto.

Falemos também de VELOX: uma vez mais, a equipa parece ter-se desintegrado antes de chegar à final four da MLP e chegou a essa fase do ano já praticamente acabada. Podemos considerar o projeto da VELOX como uma desilusão nesta segunda metade do ano?

É uma questão difícil, porque sempre passou um pouco para fora que aquilo estava mais partido internamente do que aparentava. Não consigo considerar que tenham fracassado exatamente por essa razão, de um ambiente esquisito e depois porque os três jogadores tiveram uma boa final four onde souberam aproveitar para se valorizarem.

Onde podem encaixar os três portugueses que agora deixaram a organização espanhola?

Tendo em conta que no final das temporadas existe sempre a dança das cadeiras, creio ser difícil eles continuarem os três juntos. Deve ser consensual que shr é o jogador mais apetecível e até achei que ele fosse para os GTZ, mas depois lembro-me que já esteve com o snapy nos OFFSET e agora para os GTZ acabou por não ser escolhido, não sei se por timing ou por opção geral dentro da equipa.

Vamos também ao cenário feminino: a BIG EQUIPA arrancou muito bem o ano, esteve nas decisões da ESL Impact, mas parece ter vindo a perder algum gás e a saída de Aidy parece não ter resolvido o problema. Qual pode ser o próximo passo?

Eu gostava honestamente que o lineup ficasse 100% português e depois, com as condições que os BIG conseguem proporcionar, a equipa desse aquele step up. Reparei que estagnaram muito e que repetem algumas vezes os mesmos erros. Para quem está de fora, fica um pouco um indicador que ou atingiram o seu máximo, ou está a faltar um pouco mais de treino.

Foquemos agora a conversa no cenário internacional: que balanço fazes do ano 2022 lá fora?

Eu gostei, porque tivemos constantes trocas da equipa a abater. Tivemos durante muito tempo ali a luta entre NAVI e FaZe, mas depois neste final de ano apimentou-se as coisas com novos intervenientes, onde entraram os Vitality e depois melhor os Outsiders.

Olhando ao panorama atual, com FaZe a ter tido um grande ano, mas a falhar na segunda metade do mesmo, com NAVI num momento de incertezas, com G2 a continuar com problemas, o que podemos esperar em 2023?

Para já estou super curioso para ver se vamos ter confirmação ou não dos rumores entre NAVI e Cloud9 e as supostas mexidas. Outsiders e Heroic creio que se vão manter lá por cima, G2 tem a obrigação de fazer bem melhor. Creio que Vitality vai estar mais vezes na luta pela vitória nos torneios, mas não posso deixar de fora da equação os Astralis, que vão reestruturar em torno de dev1ce, que logo na estreia nos deu aquelas indicações que vem para partir tudo.

 

Com o final do ano a aproximar-se, a época vai sendo de balanços. A temporada para as equipas portuguesas terminou com a SAW a conquistar a ESL Challenger League S43 esta segunda-feira.