São raras as vezes que as pessoas param para pensar na interface, ou na maneira como os objectos tecnológicos se comunicam com quem os utiliza: como recebem as instruções, como avisam a respeito do que está a acontecer e assim por diante. Fundamental na vida moderna, a triste verdade é que a interface dos objectos costuma ser muito má. Programar VHS é um exemplo antigo e inesquecível. Configurar um PC é outro exemplo velho, mas extremamente actual.

Tudo isto começou porque a revolução tecnológica, a partir de finais da década de 1970, foi liderada por engenheiros, que viam a interface como pura e simples. Alguns centros notabilizaram-se por tentar mudar isso, em geral com pouco sucesso, e deve ser referido o Centro de Pesquisas da Xerox (PARC), onde nasceram boa parte das ideias que mais tarde a Apple tornaria famosas, como o rato e a reciclagem no ambiente de trabalho.

Graças aos telemóveiss, a questão da interface está mais viva do que nunca. A mobilidade da informação está a atingir rapidamente patamares elevadissimos. Mas poucas coisas têm interface tão má quanto os telemóveis. Pela ordem: estrutura de menus ilógica, teclados pequenos e totalmente inapropriados para a escrita de textos, monitores muito minúsculos para aquilo que se pretende mostrar. As novas gerações de equipamentos não estão a melhorar muito a situação.

Os novos e caros smartphones da Microsoft, como o Motorola MPx 220, que trazem o sistema operacional Windows PocketPC, podem dar acesso á net, passam vídeos, sincronizam dados com o outlook, lêem ficheiros Excel, apresentações PowerPoint… Não são nada maus, muito pelo contrário. Só que têm monitor pequeno, o velho teclado alfa-numérico dos telemóveis e nada de rato ou caneta. Ou seja, boa sorte…

Na luta entre a mobilidade e interface, às vezes o inesperado acontece. Ler Guerra e Paz é tarefa difícil para qualquer um, mas imaginem tentarem isso no telemóvel, com o monitor a exibir letras pequenas e três linhas de cada vez . Loucura? Pois essa é a última moda no Japão, numa febre que já começou a espalhar-se pela China e Coreia. A situação está tão quente que a operadora Bandai Networks já tem mais de 150 livros disponíveis on line e cerca de 50.000 assinantes. Além de romances, as pessoas estão a fazer download de dicionários, livros técnicos e eróticos, de um tipo que elas teriam vergonha de comprar numa livraria ou num quiosque e exibir por aí, mas que não vêem problema em ter no telemóvel. A partir do próprio telemóvel os utilizadores podem fazer pesquisas por autor, género, título, e depois mandar mensagens com críticas ou sugestões para os autores. E a interface? Esqueçam…

Nessa direcção, um fenómeno ainda mais novo e improvável parece estar a surgir: os livros escritos exclusivamente “para” telemóveis. Deep Love é o melhor exemplo. Os seus contos falam das aventuras de uma prostituta adolescente de Tóquio, e foi originalmente disponibilizado para download no site “semi-secreto” do seu autor, um certo Yoshi. Fez tanto sucesso que saiu na TV e acabou por virar livro “de verdade”, com nada de desprezíveis 2,6 milhões de exemplares vendidos. Yoshi continua a escrever e, dispondo de um “ibope” automático, que é o número de acesso aos seus textos, sabe, como se fosse um autor de telenovelas, quando está a agradar e quando precisa de mudar alguma coisa o que não deixa de ser curioso. Isso tudo não quer dizer que o sucesso dos livros no telemóvel seja próximo do que fazem ringtones e jogos. E nem que esta febre ocorrerá igualmente em outros países, afinal o Japão e os Tigres Asiáticos parecem ser um planeta à parte quando o assunto é tecnologia. Mas de qualquer maneira, o fenómeno não deixa de ser impressionante.

Se alguém dissesse que livros nos telemóveis fariam sucesso, talvez fosse uma piada…. Motivo? A interface. Se ler livros no monitor do computador é mau, imagine-se no telemóvel… É impressionante a capacidade que se tem de prever erradamente as coisas. Ao contrário do PC, o telemóvel – como o livro – é móvel. Toda a gente pode ler qualquer livro, em qualquer lugar, em qualquer posição, a qualquer hora. Isso é mobilidade. Apesar da interface….