A temporada de 2022 de CS:GO já chegou ao fim e depois de conversas com Igor “PIKA” Martins e com André “Mucha” Muchagata, que fizeram um balanço daquilo que foi esta época, é tempo de olhar também para o cenário feminino. Nesse sentido, o FRAGlíder foi conversar com Ricardo “JTR” Júnior, treinador da Nigma Galaxy. Em entrevista, o técnico falou daquilo que foi esta temporada e do panorama em que se encontra o cenário competitivo feminino.

Num olhar mais geral para 2022, o treinador disse ter sido um ano difícil. “Para além dos torneios femininos, também nos focamos muito em tentar chegar a algum lado nos torneios masculinos. Jogámos o CCT, tentámos chegar à ESEA Advanced e isso são sempre marcos importantes para nós. No que toca ao cenário feminino, foi um bom ano”, acrescentou.

Ainda a fechar o que foi o ano, JTR mostrou-se satisfeito pela equipa ter sido capaz de impor o seu estilo. “Conseguimos mostrar a nossa maneira de jogar e, no fim de contas, provámos a nós próprios aquilo que já sabíamos. Vamos procurar fazer o mesmo no ano que vem”, afirmou.

A entrada de Kat

Ainda na primeira metade do ano, a Nigma Galaxy fez uma alteração, com Kelly “KllyVe” Verhaegen a deixar o projeto. “A saída da KllyVe foi também por escolha pessoal. Ela já estava numa fase da vida em que não queria dedicar-se tanto a um vídeojogo e o facto de não ter havido torneios também a ajudou a ter esta perspetiva mais depressiva do jogo”, explicou JTR.

O lugar vago foi depois assumido pela eslovaca Katarína “Kat” Vašková. “Era uma jogadora bastante desconhecida e nós encontramo-la enquanto ela fazia streams”, lembrou Ricardo Júnior. “A primeira vez que eu olhei, disse que podíamos experimentar. Ela não tinha nenhuma equipa boa e acabava por ser a jogadora feminina com mais ELO no FACEIT. Estranhei nunca ter ouvido falar dela. Testámos algumas jogadoras, mas ela mostrou um grande empenho e vontade de aprender”, acrescentou.

Para além disso, Kat tinha uma vantagem em relação a todas as outras e que também teve o seu peso na escolha da Nigma Galaxy“Acabámos por escolhê-la também por ser uma jogadora que, como não tinha grande experiência, acabava por ser facilmente moldável para as posições que queríamos, explicou JTR.

A dificuldade em encontrar talento no CS feminino

Trabalhar no cenário feminino traz toda uma série de dificuldades novas em relação ao masculino, desde logo pelo número de praticantes e pela maior dificuldade em encontrar talentos. “Como é óbvio, é muito diferente do cenário masculino, logo pela questão de números”, começou por dizer JTR.

“A quantidade de homens que joga é muito maior. Penso que isso vai diminuindo cada vez mais, mas ainda estamos numa era em que não é o suficiente. Se alguma jogadora minha tivesse que sair, ia ser outra vez um trabalho imenso procurar alguém que a pudesse substituir e que tivesse a capacidade de evolução para lá chegar, reconheceu o técnico.

Na hora de recrutar, qual é o método? Nós sempre tentámos focar em jogadoras que já estão no cenário há algum tempo e que têm boas performances individuais. Podemos dar o exemplo das NAVI Javelins, que têm algumas jogadoras com bons desempenhos individuais. A própria Zana tem boas performances. Também nos focamos muito no que acontece na fase online da ESL, e quando toca a estas pessoas mais desconhecidas, normalmente está relacionado com o conhecer outras pessoas do cenário e elas darem-te dicas”, explicou.

Aposta da ESL pode ajudar, mas não imediatamente

ESL criou recentemente um circuito competitivo destinado apenas às equipas femininas. A ESL Impact League teve as primeiras duas temporadas em 2021 e um terceiro evento realizado em Valência. Para 2023, já está confirmada a primeira paragem em Katowice, para além de mais duas temporadas da liga.

“Acho que sim, mas não num futuro próximo”, respondeu JTR à questão sobre se esta medida vem ajudar a aumentar o talento à disposição das equipas. “São precisos alguns anos para a comunidade crescer. A ESL lançou o circuito, mas uma jogadora não se torna profissional em um ano. Para resultar, isto tem que existir durante alguns anos para que as pessoas que escolherem focar-se no CS tenham realmente a oportunidade de conseguir lá chegar”, disse.

“No entanto, é muito bom, especialmente porque manteve a grande parte das equipas no CS. Se não houvesse estes torneios, a maior parte já tinha ido para o VALORANT. A minha própria equipa esteve quase a fazer a transição antes do anúncio oficial da ESL Impact. Foi importante para manter as jogadoras que já cá estavam, para manter as jogadores que estavam indecisas e para chamar de volta algumas que já tinham feito a mudança, como agora os casos da zAAz e da juliano”, acrescentou.

Objetivos  e antevisão para 2023

Com um novo ano ao virar da esquina, os objetivos da Nigma Galaxy são mais ambiciosos do que manter apenas o domínio do cenário feminino. A equipa quer também procurar deixar a sua marca entre os homens e fazer história.

“Um dos nossos objetivos é chegar à ESEA Main. É um bom objetivo. Até agora só houveram duas equipas a chegar lá. Queremos ir até à Advanced. Gostávamos também de jogar a CCT. Jogámos duas este ano, tivemos alguns resultados equilibrados e queremos fazer isso, queremos ganhar um jogo oficial na CCT”, afirmou JTR.

No que toca a uma previsão para o próximo ano, desafiámos o treinador a nomear alguns conjuntos a ter em conta. “Acho que as NAVI Javelins vão conseguir chegar mais longe. A equipa da NIP também está a ter resultados interessantes e eu acho que a BIG EQUIPA também vai ser uma equipa interessante para ver no próximo ano, especialmente em março ou abril, quando já tiverem algum tempo de treino”, atirou.

A análise ao ano da BIG EQUIPA

O treinador português respondeu também ao desafio de montar um pequeno balanço do que foi o ano da BIG EQUIPA, formação que conta com três jogadoras portuguesas. “Dou-me muito bem com elas. Diria que começaram bem o ano e Dallas foi bom para elas. Conseguiram chegar aos quartos de final e ganharam-nos um mapa. Foi equilibrado e mostraram bom CS”, começou por dizer o técnico.

No entanto, a equipa teve dificuldades em dar seguimento a esse resultado no resto do ano. “Em Valência foi o tal ceder à pressão. Vi o jogo contra as NAVI Javelins e elas tiveram dificuldades para fechar o mapa. Podia ter sido um 2-0 para a BIG EQUIPA noutro dia qualquer em que estivessem mais tranquilas. Este último torneio foi difícil. A temporada não lhes correu tão bem e a confiança também acaba por baixar”, opinou.

Para 2023, poderá surgir uma mudança na equipa, já que Andrea “kaeryka” Blanco surgiu como parte do lineup nos dois qualificadores para a ESL Impact Katowice 2023. O treinador luso analisou a jovem espanhola: “Não a conheço muito bem. Acho que tem um bom fire power, uma boa qualidade individual. Do que vi, não me pareceu mal. Dá para ver que não tem muita experiência, que tem muitas falhas nos pormenores, mas também ainda é muito nova. Pode ser uma aposta interessante.

As diferenças entre trabalhar no masculino e no feminino

JTR já teve a experiência de estar a trabalhar quer no cenário masculino, quer no feminino. Dessa forma, torna-se quase que inevitável perguntar pelas diferenças entre trabalhar com homens ou com mulheres no que ao Counter-Strike diz respeito.

Acho que o CS feminino, em certa parte, é melhor em termos de trabalho de equipa. Elas ligam-se umas às outras, em termos emocionais, de forma muito mais rápida”, apontou o jovem técnico. No entanto, também há coisas menos positivas a apontar. “O que sinto é que elas tendem a pensar demasiado e a complicar situações que são simples. Fazem uma tempestade num copo de água e isso leva a que percam segundos muito importantes. Diria que isso é a principal diferença. Para além disso, elas sentem muito mais a pressão do que as equipas masculinas. Se as coisas começam a correr mal, elas começam a ceder”, disse.

No fundo, a questão emocional que é a maior vantagem, também pode por vezes ser a maior inimiga. “Biologicamente, as mulheres são mais instáveis em termos hormonais, o que também não ajuda. Têm mais mudanças de humor, sentem certas situações de forma mais intensa e também se torna difícil ajudar, porque acaba por ser algo biológico”, concluiu.

Para 2023, JTR deverá continuar ao serviço da equipa com a qual ganhou tudo o que havia para ganhar no cenário feminino em 2022. O objetivo da Nigma Galaxy será replicar todo o sucesso e continuar a afirmar-se como o alvo a abater entre as mulheres.