O treinador português Gustavo “Juve” Alexandre esteve à conversa com o FRAGlíder para um balanço de 2022. Para além disso, o antigo treinador da Into the Breach falou sobre os objetivos para o novo ano e deixou uma garantia: não quer viver satisfeito, mas sim a procurar novas metas de forma constante.
Um balanço de 2022
“A primeira metade do ano foi, claramente, uma surpresa“, começou por dizer o treinador luso. “Comecei a entrar em torneios onde nunca tinha entrado antes, começando logo pela MDL, que agora é a ESL Challenger. Conseguimos essa proeza logo no primeiro torneio do ano. Depois surpreendi-me com o nível dos jogadores, o nível de profissionalismo que é muito maior em relação à experiência que tive em Portugal“, acrescentou.
Tudo parecia correr de vento em popa, mas desenganem-se os que pensam que é tudo um mar de rosas. “Também tivemos altos e baixos, temos que lidar com as personalidades dos jogadores e tivemos alguns problemas com um deles”, revelou Juve. No entanto, o balanço geral de 2022 é o de construção de boas memórias futuras: “Ganhei, literalmente, a minha primeira LAN, que não é bem a liga de Inglaterra, mas é como se fosse. Os Endpoint não participam porque não são totalmente ingleses. Conseguimos continuar a fazer bons torneios na REPUBLEAGUE e fomos mantendo um bom progresso. A primeira metade do ano teve logo um grande impacto em mim, porque passei para o nível internacional, não sabia o que me esperava e entrei logo em bons torneios”.
“Na segunda metade já estava com outras expetativas, porque já tinha noção do que era jogar lá fora. Quando o draken e o RuStY entram para a equipa, ganhámos logo os primeiros dois torneios, uma ESEA Cash Cup e uma LAN na Finlândia. Essa última é provavelmente o meu maior feito este ano, isso ou o segundo apuramento para a ESL Challenger, que conseguimos agora no final do ano e já sem organização. Em relação ao RMR, acho que foi o único desapontamento deste ano. Tínhamos qualidade para lá chegar e não o fizemos. Felizmente, recebi um convite do smooya para ir com a mix deles, mas tivemos problemas com os vistos e fomos substituídos. Isso teria sido o meu maior feito, porque toda a gente sonha em estar no Major”, disse.
“As pessoas falam que o smooya é isto e aquilo, mas é da boca para fora”
A Into the Breach passou por várias mudanças ao longo de 2022. O core manteve-se sempre em torno de William “dobbo” Dobson, Cai “CYPHER” Watson e Adam “Adam9130” Ahmad, mas as peças em redor foram mudando. Houve espaço para três duplas distintas ao longo do ano, mas Juve destacou duas.
“Os melhores resultados foram com draken e RuStY”, afirmou. No entanto, há uma outra dupla que deu mais gosto ao treinador luso. “Em termos de felicidade e de melhor aproveitamento da experiência, acho que talvez o projeto com o smooya tenha sido o que me alegrou mais”, disse. E deixou o aviso: “As pessoas falam muito que o smooya é isto e aquilo, mas falam da boca para fora, honestamente“.
O sniper britânico passou pela Into the Breach durante um curto período de tempo, tendo trazido consigo Thomas “Thomas” Utting. “Só chegámos ao top 56 e houve algum desapontamento com alguns resultados, mas foi sem dúvida o lineup que me deu mais experiência”, analisou Juve.
Depois dessa passagem da dupla smooya e Thomas, abriram-se duas vagas que a Into the Breach preencheu com jogadores de fora, nomeadamente suecos. “Pela minha experiência deste ano, existe uma diferença de qualidade de jogadores e experiência em Inglaterra. Existem bons jogadores, mas não tens tanta quantidade. Em Portugal, uma FTW ou GTZ perde um jogador e vai roubar a outra equipa. Em Inglaterra tens onde roubar, mas não confias tanto nisso“, explicou o técnico sobre as razões para a opção por jogadores estrangeiros.
“Estás habituado a um AWPer como o smooya, portanto queres um jogador com nome e experiência. O RuStY já tinha jogado com o dobbo e com o Adam, é um bom amigo deles, e também é amigo do draken. É só juntar as peças”, acrescentou.
Fase de lua de mel foi curta
Após as entradas de draken e RuStY, a Into the Breach apresentou resultados imediatos. “Treinámos uma semana e ganhámos uma ESEA Cash Cup. Passado um mês, vamos à Finlândia e ganhámos uma LAN. Ficámos a olhar uns para os outros e a pensar no que fizemos em apenas um mês”, disse Juve.
No entanto, as coisas rapidamente começaram a descambar. “O problema não foi o início. O inglês era tranquilo entre todos, o ambiente era tranquilo. O problema foi quando começámos a perder e a forma como o pessoal reagiu às derrotas. Aí sim, senti dificuldades em controlar certos jogadores. Não vou colocar nomes, o objetivo não é esse, mas também daí este desfecho. Parece que deixaram de confiar, começaram a apontar dedos e isso não se tornou benéfico. Começaram a haver mais discussões e passámos de uma fase de lua de mel para uma não muito boa, ali entre outubro e novembro”, analisou.
Na visão de Juve, “enquanto esteve tudo bem, o pessoal não se revelou muito”. “Quando se dá o choque de perder jogos, comecei a sentir as diferenças de personalidade, os egos. Tinha que lidar de uma forma mais rígida com alguns jogadores e isso não foi bom para o ambiente da equipa. Nós mesmos íamos fazer mudanças, não o vou esconder. Íamos tirar um jogador, muito por decisão minha. Queria forçar essa saída, porque não estava a funcionar”, revelou.
Saída da ITB e os planos para 2023
A 10 de dezembro, a Into the Breach anunciou a separação do lineup de CS:GO, uma decisão que não apanhou ninguém de surpresa. “Já sabíamos o que ia acontecer. Fomos avisados previamente e houve profissionalismo nessa parte. Ninguém foi apanhado de surpresa. Houve uma conversa, aí em fins de novembro, e tudo foi falado”, atirou Juve.
Esta saída da organização britânica abre outras portas para a nova temporada, mas o futuro do técnico luso ainda é incerto, bem como o dos jogadores. Numa opinião pessoal, Juve acredita que os mesmos vão seguir caminhos distintos. “Acho que não se vão manter juntos. Se já houve problemas no passado e iam haver trocas, não vejo razões para que aconteça, a não ser este último feito do ano e que queiram jogar a ESL Challenger juntos”, disse.
Em relação ao seu futuro, o treinador quer continuar no estrangeiro, mas ainda não tem nada definido: “Em relação a mim, já tive propostas, algumas delas aliciantes. Espero em breve revelar onde e com quem vou trabalhar. Muito possivelmente não irei continuar com este lineup. Será uma etapa nova na minha carreira, se tudo correr bem um passo em frente”.
O regresso a Portugal está, por isso, posto de parte nesta fase: “O objetivo é continuar lá fora. Nem sempre todos os passos para trás são maus, mas voltar a Portugal não seria o ideal para mim. Eu quero mais. Não quero viver satisfeito, quero mais. O próximo passo é ir ao RMR”, concluiu.
Com a nova temporada a começar, o futuro do treinador português deve ser conhecido em breve. No entanto, tudo aponta para que seja junto de outros jogadores.